Golpe Do Falso Advogado: Como Identificar, Evitar e Reagir ao Golpe Imediatamente

Um alerta urgente sobre uma fraude que começa dentro dos tribunais

Escrevo este artigo movida por um senso real de urgência e responsabilidade profissional.

Em novembro passado, minha identidade profissional foi utilizada por criminosos em uma tentativa de fraude contra meus próprios clientes. Não foi um caso isolado. Trata-se de um golpe que vem se espalhando de forma silenciosa, sofisticada e altamente convincente: o golpe do falso advogado.

O que torna essa fraude especialmente perigosa é o fato de ela nascer a partir de informações reais, retiradas de processos judiciais públicos, e explorar justamente aquilo que deveria ser a base da relação jurídica: a confiança.

Este texto é um alerta claro, direto e necessário — tanto para clientes quanto para colegas da advocacia.

Diferentemente de golpes genéricos, essa fraude não é aleatória. Ela segue uma lógica precisa e organizada.

1. A origem dos dados: processos judiciais públicos

É comum que a vítima se pergunte:
“Como essa pessoa sabia do meu processo e do nome do meu advogado?”

A resposta é simples — e preocupante.

Por força de lei, os processos judiciais cíveis são públicos. Qualquer pessoa pode consultar o andamento de uma ação nos sites dos tribunais. Os golpistas se aproveitam disso e atuam como verdadeiros “garimpeiros de dados”:

  • pesquisam processos, especialmente aqueles próximos de decisões ou liberações de valores;
  • obtêm o nome completo do cliente e do advogado diretamente no sistema;
  • localizam o número da OAB, fotos profissionais, redes sociais e sites do escritório;
  • criam perfis falsos extremamente convincentes.

Quando o contato acontece, o criminoso já sabe demais, e isso gera uma falsa sensação de legitimidade.

2. A execução do golpe: urgência, emoção e engenharia social

Com os dados em mãos, inicia-se a fase mais perigosa.

No meu caso, os golpistas utilizaram minha própria foto para criar contas falsas no WhatsApp, com números diferentes. A abordagem era sempre a mesma:

  • anúncio de liberação de valores do processo;
  • exigência de pagamento “urgente” de taxas, custas ou impostos;
  • solicitação de PIX para conta de terceiros;
  • pressão emocional para impedir conferência ou verificação.

A urgência é a principal arma. Ela bloqueia o raciocínio e empurra a vítima para uma decisão precipitada.

Felizmente, muitos clientes desconfiaram e me contataram antes de qualquer pagamento. Ainda assim, os riscos foram enormes, e os danos potenciais, incalculáveis.

A dupla vitimização do advogado

Existe um aspecto pouco falado — e extremamente grave — nesse tipo de fraude.

Além de ter sua imagem e credibilidade utilizadas por criminosos, o advogado muitas vezes acaba respondendo judicialmente, pois o cliente lesado, em busca de reparação, ajuíza ação contra quem ele acredita ter falhado.

Cria-se, assim, uma dupla vitimização:

  1. o advogado é vítima do crime;
  2. e, depois, é colocado no banco dos réus por um ato que não praticou.

É essencial que se compreenda: neste golpe, o advogado também é vítima.

É possível recuperar o dinheiro perdido?

Essa é a pergunta mais frequente — e a resposta precisa ser honesta.

Sim, existe um caminho jurídico, mas ele não é simples nem garantido.

A principal estratégia tem sido a responsabilização das instituições financeiras, com base na Súmula 479 do STJ, que reconhece a responsabilidade objetiva dos bancos por fraudes praticadas por terceiros, quando relacionadas ao risco da atividade.

Entendimentos favoráveis

Há decisões relevantes, como:

  • TJ-ES – Recurso Inominado Cível nº 5011369-92.2024.8.08.0024
  • TJ-GO – Reclamação nº 5276651-19.2023.8.09.0051

Nesses casos, os tribunais reconheceram falha na abertura de contas fraudulentas e na fiscalização de transações atípicas, determinando a restituição dos valores.

O alerta necessário

Apesar disso, é fundamental ter clareza:

  • o processo pode ser longo;
  • há custos envolvidos;
  • o êxito depende das provas do caso concreto;
  • não existe garantia de decisão favorável.

Por isso, reforço com absoluta convicção profissional:
a prevenção ainda é a forma mais segura, rápida e menos onerosa de proteção.

Como se proteger: orientações essenciais para clientes

Adote estas medidas de segurança sem exceção:

  • Desconfie de contatos inesperados, especialmente se o número for diferente do habitual.
  • Nunca realize pagamentos urgentes via PIX para contas de pessoas físicas ou terceiros.
  • Não clique em links enviados para “visualizar alvarás”, “confirmar dados” ou “acessar o processo”. Esses links podem roubar dados ou direcionar para páginas falsas.
  • Ligue para o número que você sempre utilizou para falar com seu advogado. Mensagens não bastam.
  • Confira cuidadosamente os dados do PIX. O destinatário deve ser o advogado ou o escritório, jamais um estranho.

Uma medida adicional de segurança: cláusula contratual preventiva

Diante do aumento desses golpes, passei a adotar uma medida preventiva adicional: a inclusão de cláusula específica nos contratos.

Essa cláusula estabelece que:

  • comunicações sobre valores, acordos ou liberações financeiras serão feitas exclusivamente por ligação ou reunião, nunca apenas por mensagens;
  • é dever do cliente verificar identidade e dados antes de qualquer transação;
  • a ausência dessa diligência pode gerar prejuízos irreversíveis.

Não se trata de transferência de responsabilidade, mas de um pacto de segurança mútua.

Conclusão: confiança exige vigilância

A advocacia é construída sobre confiança.
Mas, no ambiente digital, confiança sem verificação virou vulnerabilidade.

Golpistas se sofisticam. Usam dados reais. Copiam imagens. Criam narrativas convincentes.
A única resposta eficaz é informação, cautela e comunicação direta.

Na menor dúvida, pare.
Verifique.
Ligue.
Confirme.

A prevenção protege clientes, preserva vínculos e resguarda a integridade da própria advocacia.

Sobre mim

Sou Tatiana Fortes, Advogada de Famílias, mentora jurídica e estrategista de decisões familiares. Atuo de forma consultiva e contenciosa na organização jurídica das relações afetivas, no planejamento matrimonial, na estruturação patrimonial e na condução responsável de separações e divórcios, sempre com foco na prevenção de conflitos, na proteção patrimonial e na segurança existencial das famílias.

Minha atuação é marcada por uma advocacia técnica, estratégica e humanizada, voltada a pessoas e famílias que enfrentam decisões sensíveis envolvendo casamento, união estável, divórcio, parentalidade, pensão alimentícia e reorganização da vida familiar. O trabalho é desenvolvido com atenção às consequências jurídicas, emocionais e patrimoniais de cada escolha, priorizando soluções conscientes, responsáveis e juridicamente seguras.

Sou autora do livro “O Afeto Não Se Rompe”, no qual analiso, de forma técnica e sensível, os vínculos familiares, a parentalidade e a responsabilidade emocional após a ruptura conjugal, oferecendo reflexões jurídicas para atravessar processos de reorganização familiar com mais clareza e maturidade.
📘 Livro disponível em: https://a.co/d/aPG64sT

Também sou autora do ebook “Pensão Alimentícia na Prática”, voltado a famílias que buscam clareza, equilíbrio e segurança jurídica na definição e revisão das responsabilidades parentais e financeiras.
📄 Ebook disponível em: https://pay.kiwify.com.br/al7jV0D

Mais informações sobre minha atuação profissional, conteúdos jurídicos e formas de atendimento estão disponíveis em:
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